História

 

  A SBC
 
Luiz de Oliveira Neves

Por Lair Barbosa de Castro Ribeiro

Não sou dos que acreditam que a morte redime o homem, modificando-lhe os traços significativos de toda uma vida. Nem para um bom ou mau julgamento. Quando muito, a morte, que o tempo converte em lembrança saudosa... e cada vez menos dolorosa, resgata a memória dos homens pelo que construíram na vida, com o saldo, positivo ou negativo entre acertos e erros de suas ações. Assim relembro Luiz de Oliveira Neves, com quem convivi na fecunda labuta dos Hospitais e no plano das inúmeras outras atividades, como médico e estudioso, dedicado ao ofício de curar, num intercâmbio diário de experiências, que não deixou espaço para retratá-lo com fantasia!

Nem permite deslembrar quem lutou, ao lado de outros, incansavelmente, pela idéia de edificar o Hospital do Câncer, na Bahia. Com efeito, recentemente diplomado (formou-se médico em 1951) e já bem afeito a arte médica o víamos dirigindo o Hospital Aristides Maltez, ainda inacabado, dando à Casa condições de funcionamento, em 1952, quando mal se abriam corredores e alas, materialmente construídas, mas que careciam, no entanto, de devotamento e do calor humano que só os idealistas forcejam por empregar.

Para isso, ei-lo novamente a convocar jovens para a implantação de um projeto novo, mesclando a estrutura física do que se conhecia, como opção de trabalho, com a busca de extrema funcionalidade dos serviços. Ali, naquele Hospital, que foi canteiro de sua vida, brigou pelo êxito da instituição, desvelando-se no auxílio fraterno, desde as inúmeras reuniões que presidia - senhoras da sociedade e da caridade, de estudantes e médicos, além das administrativas - na trincheira da luta pela sobrevivência do seu ideal, sempre prestando contas, a todos, de tudo que foi empreendendo do curso da vida.

A ele se deve muito, sem dúvida, o reconhecimento e a creditação de respeito que o Hospital Aristides Maltez obteve no cenário nacional, na luta contra o câncer, sempre atento ao progresso da medicina para não sofrer o contrapasso da investigação científica. Aqui, recorde-se, fundou o 1º Serviço de Prevenção de Câncer ginecológico, em moldes tais que serviu de referência para a instalação de outros centros, na Bahia e no Brasil, como paradigma.

Também ali, no seu Hospital, abrigou, com invejável capacidade de estimular vocações, o ensino médico especializado em cancerologia, recrutando estagiários de todo Brasil e até do exterior, com treinamento reconhecido pelo nível de excelência.

Desde então, atento à adução da ciência e de seu tempo, instou por desvincular a prática da mastologia do capítulo da Ginecologia, como já se dava em países da Europa e dos EUA, e instalou o primeiro serviço especializado no Hospital Aristides Maltez, em 1956, sob a inspiração única dele, Luiz Neves, sendo ali reconhecido como o primeiro mastologista, também. Quantos serão os que lhe devemos, na Bahia, a iniciação e a especialização médica, com proveito e renome?

Depois, com a evolução dos serviços e do atendimento, foi estudiosos pioneiro da citologia dos fluxos papilares. Sempre ele... com trabalho de alto nível, que entregava logo o serviço aos melhores assistentes, aos colegas do melhor aproveitamnento, enquanto ele seguia... e saía por aí..., a busca de novas tarei os!

Como esquecer Luiz Neves, idealizador incansável e Presidente do I Congresso Brasileiro de Cancerologia que sucedeu na Bahia, em 1960?! E de outras inúmeras realizações culturais e científicas de que participou, através dos Ministério da Saúde e da Previdência Social, da Sociedade Brasileira de Cancerologia, ou em órgãos e entidades baianas e de outros Estados?!

Como não anotar os trabalhos científicos, vários de seu currículo de estudioso, mais de duas dezenas, todos defendidos em simpósios e congressos, além de publicados?! E daquelas centenas e centenas, de sessões ordinárias, no Hospital Aristides Maltez, onde apresentava trabalhos do Centro de Estudos’!!

Esquecer, quem há de!!

Médico e estudiosos abnegado - um lutador invejável pela conquista dos domínios de sua arte. Um servo do ofício. Um visionário... mas que não fugia, porém, da conciliação com o possível, na busca dos objetivos que exigia e ia conquistando, um a um. Aqui, entre nós, enquanto viveu na Bahia, ou mesmo mais distante, no Rio de Janeiro, onde se radicou, finalmente, com a mesma luta pertinaz.

Não obstante seus méritos, este foi um homem simples por temperamento, extremamente modesto, que não cultivava homenagens... e assim faleceu, com mansidão e quietude, sem louvores.

Esta lembrança, que não é só minha, perpetua a memória dos bons, sirva de exemplo aos mais jovens, que não o conheceram, e resgata o nome de quem, fazendo-se médico e abraçando a profissão com inteireza, foi pioneiro na luta contra o câncer quem, malgrado tudo, não terminou.

Assim foi o homem, o médico, o cientista, o pesquisador Luiz Neves.

O amigo que eu conheci.


Carlos Aristides Maltez (Lilito)

Por Aníbal Muniz Silvany Filho

Éramos jovens, quando nos conhecemos. Foi uma amizade nascida franca, cordial, fraterna, onde a empatia mútua e a adoção de ideais comuns, fizeram-na crescer forte. Senti, desde cedo, a vocação iluminada do amigo, empenhado, teimosamente, na continuação do sonho de seu ilustre pai, na construção de um Centro de Cancerologia na Bahia. Conseguiu, pelo exemplo de pertinência e um convincente discurso, agregar junto de si, um grupo de jovens, dispostos a ajudá-lo. Lembro-me das reuniões preparatórias e científicas, na sala acanhada da chácara “Boa sorte”, doada pelo interventor Landulfo Alves à recém fundada Liga Bahiana Contra o Câncer. Os participantes, poucos, na verdade, possuíam o fogo sagrado da determinação de um alento que foi inquebrantável, como pude apreciar no correr dos anos. Estávamos em 1946, logo após o término da II Guerra Mundial. O milagre surgiu, passo a passo, esforço a esforço, temperado com sacrifício, mas sem desânimos.

Em 1952, iniciávamos no Hospital, parcialmente construído, assistência médica e a trilha de estudos, pesquisas e a aplicação ainda maior na oncologia. Carlos, junto dele Luiz Neves, Alexinaldo Portela, eram incansáveis. Depois, uma equipe de jovens, todos possuídos, contaminados pelo mesmo ideal, congregaram-se. Foi uma epopéia que me deixa acrisolado e nostálgico. Plantávamos, todos nós, uma semente fecunda. O trabalho comoveu a sociedade, aos governantes, ao povo e nunca faltou apoio. Trabalhávamos e doávamos os salários. “Litito” e Luiz Neves indômitos, contornavam as ondas, faziam crescer mais os méritos do Hospital.

Os bons amigos do Rio de Janeiro, São Paulo, Recife, Belo Horizonte, Fortaleza, Belém, Porto Alegre, João Pessoa e Natal jamais deixaram de dar via participação às nossas iniciativas científicas.

“Lilito” era humano, excelente cirurgião, dominando competentemente a anatomia pélvica e inaugurando, em Salvador, as operações radicais, recomendadas no tratamento do câncer ginecológico. Fez discípulos. entre as quais suas filhas médicas, talentosas e competentes na esfera da ginecologia.

Nunca deixou de incentivar os que lhe estavam próximos, pois sem vaidades fátuas, não se incomodava com o sucesso de seus colegas.

Guardo lembranças agradáveis desta convivência, prolongada aos nossos familiares.

Sempre estivemos perto, pelos encargos da Instituição, por amizade, até no dia de sua morte.

Amava o trabalho e sua profissão. Dizia-me que desejava morrer trabalhando e assim foi. Numa cinzenta manhã, nos encontramos na saleta de conforto dos cirurgiões. Sentado ao seu lado, estranhei o semblante soturno, e a falta da nossa sempre alegre conversa de velhos e fraternos amigos; tornei-me mais preocupado porque à sua volta estavam suas filhas e genros, também médicos, todos tensos. Havia algo pairando no ar, evidentemente grave. A nossa conversa foi fria. Disse-lhe, desabafando-me: “Lilito tenho-o corno um amigo muito caro”. Respondeu-me afetuosamente, mas monossilabicamente. Soara o tempo da operação e dirigiu-se à sala, com os seus.

No meio da manhã, chegou-me a notícia do seu falecimento. Na noite precedente havia sofrido um infarto do miocárdio extenso, e seu médico assistente recomendou que mantivesse repouso absoluto no leito. Recusou-se internar-se. Cedo levantou-se, e contrariando os apelos dos familiares, dirigiu-se para a operação, onde o encontrara, de tudo desconhecendo. Morrera, como desejara, no sagrado prazer de ajudar ao próximo, no exercício pleno de sua profissão.

Perdemos o amigo, mas sua obra persiste, altaneira, prestando serviços inestimáveis aos carentes, agregando um grupo de jovens especialistas de muitos méritos. É justo fazer essa homenagem, realçando sua figura de mentor da cancerologia na Bahia, quando se realizam em Salvador, comnemorações alusivas aos 50 anos na luta contra o câncer no Brasil.


Jean Chicre Miguel Bitar

Por Adonis R. L. de Carvalho

O DR. JEAN BITAR nasceu em Belém, PA em 1922 e foi urna das figuras marcantes da Cancerologia Brasileira e da Sociedade Brasileira de Cancerologia. Foi o mais eminente promotor do Instituto Ofir Loyola, em Belém, o grande centro da luta contra o câncer no Norte do País. Bitar, como era conhecido dos seus colegas, discípulos e amigos, iniciou-se como cirurgião e Chefe do Serviço de Eletrocirurgia do Instituto, em 1948 vindo a ser seu 1° Vice-Presidente e depois Presidente, por 36 anos. Fundou o Hospital dos Servidores do Estado do Pará, em 1960 e seu Diretor durante longos anos, associando-o ao Instituto Ofir Loyola. Em 1970 fundou, também em associação ao Instituto, a Faculdade Estadual de Medicina do Pará, do qual foi professor titular de cirurgia e diretor. Sempre militou, como um dos seus membros mais ativos, na Sociedade Brasileira de Cancerologia, tendo realizado em Belém, um dos mais memoráveis congressos no gênero, o VII Congresso Brasileiro de Cancerologia.

O Dr. Bitar faleceu em 3 de setembro de 1990, no seio de sua família, na sua querida Belém, onde viveu toda a vida


Ivo Carlos Roesler

Por Adonis R. L. de Carvalho

IVO CARLOS ROESLER foi um dos mais importantes artífices do desenvolvimento da Radioterapia no Nordeste brasileiro, iniciada por seu pai, Dr. Ernesto Roesler, já na década de vinte. Formado pela Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Pernambuco, ainda jovem, aos 22 anos, nos idos de 1947, interessou-se pela Radiologia geral e pela Radioterapia, por legado e por talento, tendo esta última atraído seu maior interesse, pois, corno diria mais tarde “trata-se de matéria dinâmica, de desafio, onde podemos acompanhar a evolução de todo um processo e aprender com ele. Eu gosto de desafios”.

No transcorrer da década de cinqüenta, esteve na Argentina, no Uruguai, França, Portugal, Suécia, Inglaterra, Alemanha, tendo convivido com grandes mestres, com Leborgne, Baclesse, Kotmeir e tantos outros, que o influenciaram e foram influenciados por ele, por sua formação eclética, sólida e sofisticada. Voltou ao Recife, assumindo a chefia do Departamento de Radioterapia do Hospital do Câncer de Pernambuco em 1957 e, no ano seguinte, a chefia do Serviço de Radioterapia do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Pernambuco, inaugurando a primeira bomba de Cobalto do Estado e do Nordeste naquele Hospital e, em seguida, uma outra bomba de Cobalto no Hospital do Câncer de Pernambuco.

Foi o presidente da Sociedade Brasileira de Cancerologia criou o primeiro Serviço de Clínica Médica do Norte-Nordeste, incentivou inúmeros especialistas, alguns deles hoje militando em diversas partes do país.

O tradicional instituto de Radium da rua Gervásio Pires, 125, do Recife, fundado por seu pai, Dr. Ernesto Roesler, na década de vinte, ampliou seu campo de atividade médica através de suas mãos e a partir de 1978 transferiu-se para o Real Hospital Português de Beneficência, ali sendo instalado o primeiro Acelerador Linear de Partículas do Estado de Pernambuco, o terceiro do Brasil.

Seu desaparecimento, em novembro de 1990, deixa-nos uma lacuna inestimável, mas, ao mesmo tempo, a sua marcante inquietude científica nos estimula a prosseguir nesse caminho, fazendo com que a sua lembrança seja sempre alegre e presente.


Ivo Carlos Roesler

Por Adonis R. L. de Carvalho

O DR. JEAN BITAR nasceu em Belém, PA em 1922 e foi urna das figuras marcantes da Cancerologia Brasileira e da Sociedade Brasileira de Cancerologia. Foi o mais eminente promotor do Instituto Ofir Loyola, em Belém, o grande centro da luta contra o câncer no Norte do País. Bitar, como era conhecido dos seus colegas, discípulos e amigos, iniciou-se como cirurgião e Chefe do Serviço de Eletrocirurgia do Instituto, em 1948 vindo a ser seu 1° Vice-Presidente e depois Presidente, por 36 anos. Fundou o Hospital dos Servidores do Estado do Pará, em 1960 e seu Diretor durante longos anos, associando-o ao Instituto Ofir Loyola. Em 1970 fundou, também em associação ao Instituto, a Faculdade Estadual de Medicina do Pará, do qual foi professor titular de cirurgia e diretor. Sempre militou, como um dos seus membros mais ativos, na Sociedade Brasileira de Cancerologia, tendo realizado em Belém, um dos mais memoráveis congressos no gênero, o VII Congresso Brasileiro de Cancerologia.

O Dr. Bitar faleceu em 3 de setembro de 1990, no seio de sua família, na sua querida Belém, onde viveu toda a vida


Alberto Lima de Moraes Coutinhor

João Luiz Campos Soares

ALBERTO LIMA DE MORAES COUTINHO, nasceu em Pernambuco no dia 30 de agosto de 1902. Ainda criança, foi para o Rio de Janeiro onde, em 1927, diplomou-se em Medicina pela Faculdade Nacional de Medicina da Universidade do Brasil. Iniciou suas atividades na Santa Casa da Misericórdia, na Disciplina de Clínica, Cirúrgica cujo catedrático era o Prof. Augusto Brandão Filho. Lá começou sua ascensão profissional chegando a Livre Docente e Chefe de Clínica. Colaborou, com Mário Kroeff e Jorge de Marsillac, na fundação do Serviço Nacional de Câncer, em 1938, da Associação Brasileira de Assistência aos Cancerosos, em 1939, da Sociedade Brasileira de Cancerologia em 1946 e da Legião Feminina de Educação e Combate ao Câncer, em 1951. Foi o primeiro Diretor do Instituto Nacional de Câncer, exercendo esse cargo de 1938 a 1954. Pugnou pela criação da Seção de Mastologia naquela Instituição, o que conseguiu em 1957, respondendo pela sua chefia até 1969. Pioneiro do ensino da Cancerologia no País, organizou e ministrou inúmeros cursos sobre Oncologia. Dedicou-se, com especial carinho, à mastologia, sua paixão desde a época de estudante, fundando a Sociedade Brasileira de Mastologia, em 1959, sendo seu Presidente por mais de uma vez, interferiu, decisivamente, com o seu prestígio para tornar a Mastologia urna especialidade médica. Além de numerosos prêmios e condecorações, recebeu o título de Emérito do Colégio Brasileiro de Cirurgiões e da Academia Nacional de Medicina, coroando urna existência cheia de ideais e realízações.

Deixou o nosso convívio em 23 de outubro de 1984, legando a todos, especialmente àqueles que com ele conviveram, um exemplo de dignidade, honradez, perseverança nas suas metas, respeito e trabalho, através de uma invejável cultura geral, e médica aliados aos dotes de exímio cirurgião.