A SBC e seu Brasão de Armas
Luiz Carlos Calmon Teixeira
O tempo, na inexorabilidade do seu passar, costuma deixar, em todas as coisas, vivas ou mortas, uma marca indelével, a pátina.
Este “hálito do tempo”, como a denominou, com rara felicidade, o pensador e escritor italiano Paulo Mantegazza, é capaz de impressionar e comover àqueles dotados de sensibilidade que, mirando-a, conseguem repassar um pouco da história do ser ou do objeto contemplado.
Dentro deste conceito, as comemorações do cinqüentenário de fundação da Sociedade Brasileira de Cancerologia se constituem em feliz oportunidade para que sejam levados ao conhecimento das atuais e futuras gerações de cancerologistas a origem e o porque dos símbolos de sua Sociedade maior, hoje parte integrante do seu patrimônio cultural.
Fundada em 1946, não tinha a Sociedade, até 1983, brasão ou marca definitivos, variando estes e o padrão gráfico dos impressos conforme o gosto e as tendências individuais das administrações sucessivas.
A identificação gráfica das entidades e de seus objetivos, sobretudo aquelas consagradas pela tradição, impregnadas, pois, pela pátina do tempo, como as academias, certas instituições universitárias, organizações científicas etc. é feita através do emblema heráldico.
A heráldica, misto de ciência e arte, remonta a tempos pretéritos, identificando, sobretudo, grupos familiares da nobreza, divisões ou possessões territoriais, tais como condados, principados etc. e obedecem a regras e postulados definidos internacionalmente.
As marcas nasceram, principalmente, da necessidade que tinham e têm a indústria e o comércio em caracterizar seus produtos.
As marcas são, no geral, mais relacionadas com objetivos industriais e comerciais e a heráldica com aqueles mais transcendentais.
À medida que uma instituição científica cresce, consolida-se e estende suas fronteiras no plano internacional, necessário se faz dar aos seus símbolos e demais representações gráficas dos objetivos, aspecto condizente com as normas e preceitos em vigor no chamado primeiro mundo.
Tal foi o espírito que nos norteou ao assumirmos, em 1982, um primeiro mandato para a presidência da Sociedade Brasileira de Cancerologia quando, além de ambiciosos programas de ordem científico-educacional, de expansão e consolidação da SBC no plano internacional e de defesa das entidades filantrópicas, passamos a nos ocupar também com os aspectos citados.
Para orientar-nos na elaboração de um brasão adequado à projeção alcançada pela Sociedade, fomos ao encontro do Sr. Victor Hugo Carneiro Lopes, dedicado desde os idos de 1950 ao estudo da heráldica, discípulo que era de Frei Paulo Lachenmeyer e Dom Raphael Wacker, monges beneditinos, residentes em Salvador, o primeiro deles nascido e educado na Alemanha, onde se diplomou em arquitetura e estudos heráldicos, ambos já falecidos. Dentre os diversos outros títulos acumulados pelo Sr. Victor Hugo, vale destacar os de Membro da The Heraldy Society, de Londres; membro do instituto Geográfico e Histórico da Bahia, onde integra as Comissões Permanentes de Heráldica e Genealogia e de representante oficial do Instituto no âmbito da Armaria e Medalhística; membro titular da Cadeira Nº 33 do Instituto Genealógico da Bahia, co-fundador, com Frei Paulo Lachenmeyer e Dr. Carl Hermenn Nelser, do Colégio Heráldico da Bahia; membro do instituto Paraibano de Genealogia e Heráldica.
Com tal bagagem e após ampla pesquisa sobre a origem, objetivos estatutários e situação da entidade no plano nacional e internacional, foi apresentado pelo Sr. Victor Hugo o projeto do Brasão de Armas da Sociedade Brasileira de Cancerologia, que viria a ser aprovado pela diretoria de então.
De acordo com o projeto aprovado foi confeccionado o modelo original, desenhado à mão, e tem cores, sobre pergaminho, um trabalho de elevado valor artístico e estético, onde se utilizaram técnicas primorosas e materiais como ouro em pó, e que depois de adequadamente emoldurado, ornamenta, hoje, a entrada da sede da Sociedade, em Salvador, e serve de modelo para todas as reproduções que adornam os impressos da entidade, quer a cores quer em preto e branco.
Vale aqui a tentativa de descreve-lo:
Escudo: verde, carregado com um caranguejo de ouro, transpassado por três bastões de esculápio de ouro.
Lema: Uniti Morbum Vincemus.
Comentário: a entidade médica é caracterizada pela insígnia e as cores assumidas no brasão, além de serem própria da Medicina (o verde), definem também a nacionalidade (o verde e o amarelo). Os três bastões de esculápio que transpassam o caranguejo, aludem, não só aos diversos processo de combate ao câncer, como, também, à soma de esforços empreendida nesta luta, conforme bem enuncia o lema Uniti morbum vincemus (unidos venceremos a doença).
Juntamente com o brasão, foi confeccionado o sinete respectivo, para autenticação de documentos e padronizados todos os impressos da entidade, observando-se o tipo, dimensões e situação de seus caracteres.
Os documentos tais como Diplomas, Título de Especialista etc. mereceram tipo de papel especial, impresso a cores, como no modelo original, e nos de uso habitual, impressão em preto e branco.
A iniciativa de elaborar um brasão permanente para a SBC, de acordo com as regras e normas da heráldica, longe de se constituir em mera preocupação estética, por si só justificável, visou, antes de tudo, compor a base de um marco comemorativo da maioridade da entidade e do seu ingresso no pequeno círculo de sociedades ou associações de conceito e credibilidade internacionais.